Conheci a ansiedade numa revista de bem-estar e saúde. Essa frase pode parecer um pouco inteligente e interessante mas a revista em questão trazia uma matéria intitulada “10 sintomas de ansiedade”. Para mim a ansiedade não passava de uma grande impaciência para que algo acontecesse antes do tempo previsto, mas vai por mim, ela é muito mais que isso. Nunca vou me esquecer daquela tarde em que depois da escola decidi ler os tais “sinais de ansiedade”, bom, dos 10 sinais, eu convivia com todos eles. Enquanto a maioria das adolescentes da minha idade estavam preocupadas com as festas que iam nos finais de semana e com o colega bonitinho da sala, eu observava os ponteiros do enorme relógio preto e branco daquela enfermaria vazia da escola, depois de ser mantida em observação por meia hora após um súbito mal estar e o coração acelerado sem nenhum motivo aparente. Eu sempre sentava no fundo da sala de aula, talvez pra que ninguém percebesse que eu estava “diferente”, a vontade de viver de repente foi sumindo, dia após dia. Frequentemente deitada mas nunca dormindo, os minutos viravam horas e as horas viravam dias, enquanto eu sempre observava o sol nascendo pela janela do meu quarto. Estar em locais fechados ou muito movimentados era um pesadelo real e que por muitas vezes me fez implorar pela minha casa. Apertos e dores no peito, coração acelerado, nó na garganta, mãos frias e despersonalização eram acompanhantes indesejados de um cotidiano de surpresas (ruins). Constantemente me julgava incapaz e o medo de cometer erros me sufocava. Movimentos inquietos e repetitivos me impediam de parar nem que fosse por um segundo, assim como meu cérebro que parecia trabalhar com pensamentos destrutivos 24 horas por dia, acelerado e repetidamente. Passamos algumas madrugadas escrevendo ao som de “Hurt” de Johnny Cash e meu olhar vazio que sempre me acompanhava, deixava claro que eu não sabia o que estava fazendo, foi aí que decidi ir ao neurologista, de lá migramos para a psiquiatra, da psiquiatra para psicóloga. Descobri que não estávamos sozinhas e que a depressão fazia parte da minha relação tóxica com a ansiedade. Comecei a conviver com elas quando tinha 16 anos, mas o peso era tanto que nosso convívio não parecia tão recente. Passamos por todo tipo de prova física e mental e eu admito que delas eu só queria distância, apesar delas não parecerem querer desistir antes de me derrubar. Nos afastamos de uma dúzia de amigos e até dos familiares. Doía tudo por dentro e eu quase fui vencida nessa batalha onde aprendi o significado de “solidão” e um monte de outras palavras que eu preferia não entender. Infelizmente não posso falar que terminamos a nossa relação de longa duração, nosso triângulo que é do tipo ioiô. Choro mais que no final de “Diário de uma paixão” e “O menino do pijama listrado”, só de lembrar tudo que passei com elas. Devo admitir, e seria hipocrisia não mencionar o quanto cresci e amadureci depois de ter me envolvido duramente com elas. Até hoje não tem uma festa de família ou uma conversa mais longa em que alguém não diga em algum momento: Você tá melhor? ou Já as superou? Parece que para sempre estaremos atreladas. Em abril fará cinco anos que não me permito mais que elas me derrubem ou me dominem como antes. Dá vontade de chorar tudo de novo, lembrando de cada pequena batalha, mas o que me deu foi uma felicidade muito profunda de ter vivido para contar e representar essa pequena vitória. Perto de mim a ansiedade e a depressão não são nada.